Rosalía e ‘Lux’: A Jornada Espiritual Multilíngue com Toque Português

Rosalía nunca foi de poupar criatividade. Desde sua estreia em 2017 com o álbum ‘Los Ángeles’, onde resgatou cantes flamencos ancestrais e os trouxe para o século XXI, a artista espanhola tem se reinventado a cada lançamento. Em ‘El Mal Querer’ (2018), ela ofereceu uma versão moderna do gênero andaluz, misturando-o com pop e hip-hop. Já em ‘Motomami’ (2022), sua visão a levou à América Latina, fundindo reggaeton e eletrônica disruptiva em um som único.

Agora, a artista de 33 anos apresenta seu quarto e mais recente álbum, ‘Lux’, que promete ser o mais aventureiro de sua carreira. Este trabalho não contém apenas mundos inteiros, mas sim planos astrais, estabelecendo uma ponte entre a Terra e qualquer que seja sua concepção de paraíso.

A Audaciosa Visão por Trás de ‘Lux’

‘Lux’ mergulha em uma experiência sonora global, com Rosalía cantando em impressionantes 13 idiomas diferentes, incluindo japonês, árabe, português, ucraniano, latim e siciliano. Ela dedicou um ano inteiro à elaboração das letras, começando com sua escrita instintiva e usando ferramentas de tradução para, em seguida, trabalhar em estreita colaboração com tradutores profissionais. O objetivo era garantir que cada linha soasse natural e se encaixasse perfeitamente na canção.

O conceito do álbum foi profundamente inspirado pela imersão de Rosalía em hagiografias, contos de santas femininas – ou figuras comparáveis a elas em outras religiões e culturas – de todas as partes do mundo. Essa busca espiritual e cultural transparece em cada nota e verso do projeto.

Com 18 faixas e uma hora de duração, ‘Lux’ é um álbum que exige muito do ouvinte. No entanto, ao se entregar a essa demanda, a recompensa é multifacetada e profunda. É um disco surpreendente, capaz de nos paralisar, despertar a curiosidade e construir um novo universo sonoro, enquanto se conecta de forma intrínseca aos trabalhos anteriores de Rosalía.

Em uma recente entrevista ao podcast Popcast do New York Times, Rosalía afirmou: “Quanto mais estamos na era da dopamina, mais eu quero o oposto”. ‘Lux’ reforça essa filosofia. Não há hits fáceis, picos rápidos de prazer ou loops viciantes, e é justamente essa característica que o torna ainda mais divino e significativo.

Imersão Espiritual e Crítica Social

A divindade é um tema central em ‘Lux’, permeando a obra com imagens espirituais e religiosas. Desde a capa do álbum, onde Rosalía aparece vestida com algo que se assemelha a um hábito de freira, até as frequentes alusões nas letras. Em ‘Divinize’, por exemplo, ela canta em um falsete esplêndido sobre cordas cintilantes e percussão vibrante: “Cada vértebra revela um mistério / Reze na minha coluna, é um rosário”.

A faixa de abertura, ‘Sexo, Violencia y Llantas’, divide o ouvinte entre dois mundos: o caos terreno de “Esportes sangrentos / Moedas nas gargantas” e a terra prometida, mais mágica e mística, de “Brilhos, pombos e santos”. Já em ‘Dios Es Un Stalker’ – ou ‘Deus É Um Stalker’ em português –, Rosalía se posiciona, de forma irônica, como a própria divindade titular: “Sempre fui tão mimada / E exausta por toda essa onipresença / Mas vou sequestrar este coração / Vou persegui-lo e não terei piedade”.

Rosalía faz movimentos audaciosos em sua mais recente obra-prima. ‘Mio Christo’, cantada inteiramente em italiano, é a sua versão de uma ária, com seus vocais atingindo alturas emocionais intensas. Em um momento grandioso e trovejante, no outro suave e sussurrado, seu controle sobre sua voz é sempre superlativo. ‘Novia Robot’, com letras em espanhol, mandarim e hebraico, centra-se na história da mestra taoísta chinesa Sun Bu’er, que intencionalmente estragou sua beleza jogando óleo fervente no rosto para evitar ser atraída por homens e impedir que sua jornada fosse obstruída.

Nas mãos de Rosalía, essa narrativa se torna um ponto de partida para discutir a objetificação da mulher e o papel do capitalismo na manutenção desse status quo. “Toda compra vem com garantia porque nossa política é concebida para nos fazer parecer bem e te fazer feliz, não importa o custo!”, diz ela em uma introdução falada e zombeteira. “Estamos orgulhosos de ser a empresa mais bem-sucedida em 2025, aquela com maior receita e o negócio que mais prejudica nossas irmãs.”

Um Final Ascendente e Provocador

Embora grande parte de ‘Lux’ seja de uma beleza arrebatadora – a London Symphony Orchestra oferece o acompanhamento perfeito para a entrega emocional de Rosalía –, o álbum também possui momentos de raiva contida. ‘La Perla’, que rumores apontam ser sobre seu ex-noivo Rauw Alejandro, desmantela um ex-parceiro em uma série de críticas afiadas e deliciosas, cada uma disputando o título de mais devastadora.

“Medalha de ouro em ser um filho da p*ta”, ela sussurra sobre uma valsa suave, antes de menosprezar o suposto progresso que ele faz com um terapeuta: “Mas de que adianta / Se você mente mais do que fala / Eles construirão um monumento / À sua desonestidade”. Talvez o golpe final, contudo, esteja em um dos últimos versos da canção: “Lealdade / E fidelidade / Essa é uma língua / Que ele nunca entenderá / Sua obra-prima / É sua coleção de sutiãs”. Doloroso!

Dividido em quatro movimentos, ‘Lux’ encerra-se em uma onda suave de paz, com Rosalía finalmente ascendendo de nosso plano mortal para o que quer que esteja além. “Eu venho das estrelas / Mas hoje viro pó / Para voltar a elas”, ela explica em ‘Magnolias’, que constrói delicadamente suas camadas orquestrais para um quase-final de tambores reverberantes e um órgão equilibrado. É um fim deslumbrante para um álbum que constantemente nos deixa de queixo caído; um disco que desafia a forma de consumo musical atual, pautada por playlists, faixas curtas e escuta de fundo. Diminua as luzes, ative o modo Não Perturbe em seu telefone, aumente o volume e prepare-se para uma experiência verdadeiramente única.

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