A separação dos Beatles, para muitos, pareceu um corte abrupto e final. No entanto, a realidade por trás dos Fab Four era bem diferente, marcada por uma dinâmica de idas e vindas que qualquer relacionamento intenso conhece bem. Era como qualquer término: uma grande discussão que levava a um rompimento temporário ou a um momento de certeza de que o fim havia chegado.
Um exemplo clássico foi o de George Harrison que, em 10 de janeiro de 1969, escreveu calmamente em seu diário: “Levantei, fui para Twickenham, ensaiei até a hora do almoço – deixei os Beatles”. Contudo, apenas cinco dias depois, Harrison estava de volta ao estúdio, admitindo que não queria realmente sair e reacendendo a chama da banda.
Fazer um corte limpo é difícil quando há amor, e entre os Fab Four, que cresceram juntos e viveram uma jornada única, esse amor era óbvio e duradouro. É por isso que é tão difícil atribuir o fim dos Beatles a uma única coisa ou a uma única pessoa. Em algum momento, todos os quatro expressaram irritação ou descontentamento, e a maioria chegou a sair furiosamente de alguma reunião.
Foi um período prolongado de idas e vindas, onde John Lennon, talvez o mais certo de todos eles de que as coisas deveriam terminar, rotineiramente hesitava em seus próprios planos de ruptura. Se o ‘descarte’ oficial da banda tivesse que ser atribuído a alguém, provavelmente seria dito que John Lennon foi quem finalmente deu o corte final e precipitou o fim.
O Paradoxo da Separação: Entre o Plano e o Fim
Em 20 de setembro de 1969, Lennon informou oficialmente a Paul McCartney, Ringo Starr e ao agente Allen Klein sobre sua decisão de encerrar a banda, declarando abertamente que queria um “divórcio”. Mas o que poucos sabem é que, apenas alguns dias antes, em 8 de setembro, Lennon estava elaborando um plano para manter a banda unida.
Gravado em uma fita enquanto Starr estava no hospital, Lennon reuniu os outros dois membros da banda para discutir o futuro, apresentando um plano detalhado para manter as coisas juntas e aliviar as tensões. Esse plano, revelado anos depois, mostra um Lennon determinado a lutar pela sobrevivência dos Beatles, mas de uma forma mais justa e equitativa.
A Visão de Lennon para um Futuro Mais Justo
Entre os vários pontos, Lennon queria que as coisas fossem mais justas quando se tratava da lista de faixas e dos créditos. “Temos o mercado de singles, [George e Ringo] não ganham nada! Quer dizer, nunca oferecemos lados B a George; poderíamos ter dado a ele muitos lados B, mas como éramos duas pessoas, você tinha o lado A e eu tinha o lado B”, disse ele, dirigindo-se a McCartney.
Lennon deixou claro que, dali para frente, Harrison e Starr deveriam ter a chance de escrever singles também. Ele queria criar uma fórmula para como as coisas seriam compartilhadas: “Só quero que se saiba que me é permitido colocar quatro músicas no álbum, aconteça o que acontecer”, exigindo sua parte e, mais importante, revelando sua crença de que a banda, de fato, lançaria mais discos.
Nessa reunião, ele deixou claro que desejava continuar, mas queria mudanças. Lennon queria acabar com o “mito de Lennon e McCartney”, a ideia de que a dupla escrevia tudo para a banda, e tornar a dinâmica mais sobre os quatro membros sendo respeitados e recompensados igualmente. Era uma tentativa de redefinir a essência criativa do grupo.
Nem tudo era otimismo, porém. Alguns dos planos de Lennon eram bastante duros, especialmente quando se tratava das músicas de McCartney. “Não seria melhor – já que nós realmente não gostamos delas, sabe? – você fazer músicas que você goste e que ‘Ob-La-Di’ e ‘Maxwell’ fossem dadas a pessoas que gostam desse tipo de música”, sugeriu Lennon.
Ele tentou enquadrar isso de uma maneira positiva, acrescentando: “Para um álbum, podemos fazer apenas coisas de que realmente gostamos. É um saco colocar uma música em um álbum de que ninguém gostou”, alegando que isso também ajudaria a harmonizar novamente as relações entre os quatro.
Pela primeira vez em muito tempo, Lennon parecia o mais comprometido, lutando pelo futuro da banda. Ele deixou o plano sobre a mesa e partiu para se apresentar em um festival. Quem sabe o que realmente aconteceu nesse breve intervalo, mas por alguma razão, quando ele voltou, ele queria sair; seu próprio plano havia sido descartado.
A história dos Beatles nos mostra que nem mesmo as maiores bandas estão imunes às complexidades dos relacionamentos humanos. O plano de Lennon para salvar a banda, tão meticuloso e cheio de esperança, acabou por ser apenas mais um capítulo na longa e apaixonada dança de despedida de um grupo que marcou gerações. O fim, quando veio, foi um adeus relutante, manchado pela promessa de um futuro que nunca se concretizou.







