Após nove anos afastado dos palcos, o renomado guitarrista Carlos Alomar está de volta à estrada. Sua turnê atual é uma homenagem emocionante a David Bowie e ao D.A.M. Trio, a lendária formação que o acompanhou nos anos 70. O trio, composto por Alomar, Dennis Davis (bateria) e George Murray (baixo), foi crucial para álbuns icônicos como Young Americans, Station to Station e Low, onde Bowie redefiniu seu som.
Alomar, que recentemente tem se dedicado à educação musical, revelou a motivação por trás de seu retorno. Os incêndios florestais na Califórnia em 2024 e o temor de perder seu velho amigo e colega de ritmo, George Murray, foram fatores determinantes. Sua jornada atual é uma celebração da vida, da família e da música, um lembrete vívido de sua carreira gravando e performando ao lado da realeza do rock and roll.å
Entre os gigantes com quem Alomar dividiu o palco e o estúdio, destacam-se nomes como Chuck Berry, David Bowie, John Lennon e Paul McCartney. Em uma conversa recente com a Guitar Player, Carlos Alomar mergulhou em suas memórias, compartilhando histórias únicas e reveladoras sobre esses encontros extraordinários.
Chuck Berry: A Magia do Rock sem Ensaios
A primeira experiência de Carlos Alomar com Chuck Berry foi no Rye Playland. Chamado para um trabalho, ele se deparou com Berry, que, sem rodeios, ditou as regras: “Quando eu fizer assim”, disse Berry, movendo o braço da guitarra para os lados, “vocês param. E quando eu fizer assim”, movendo para cima e para baixo, “vocês tocam.”
Com sua ingenuidade de vinte e poucos anos, Carlos Alomar ousou perguntar sobre ensaios. A resposta de Berry foi icônica: “Garoto, eu não ensaio rock and roll.” Essa frase se tornou uma lição para Alomar: “Você não ensaia rock and roll. Ou você sabe, ou não sabe.” Ele também aprendeu que, com Chuck, você não falava; Chuck falava com você.
Alomar recorda Berry como uma figura complexa, marcada por suas últimas experiências. “Ele veio e estragou tudo no final”, brinca Carlos Alomar, comparando-o a uma música que, apesar de grandiosa, termina mal. Uma lição sobre a intensidade e a imprevisibilidade do verdadeiro rock.
David Bowie: Uma Parceria Transformadora
O primeiro contato de Alomar com David Bowie foi durante as sessões do álbum Diamond Dogs na RCA Studios. A imagem de Bowie – “magro, translúcido, com cabelo laranja e chapéu” – impactou Alomar, que em tom de brincadeira o convidou para uma refeição caseira. Bowie, para sua surpresa, aceitou.
Essa interação descontraída abriu portas para uma amizade. Alomar levou Bowie ao Apollo Theater, onde ele conheceu Richard Pryor, e a clubes latinos, expondo-o a novas sonoridades. “Sua inteligência era realmente incrível”, afirma Alomar, impressionado com o vasto conhecimento de Bowie sobre a música negra americana.
Alomar inicialmente recusou convites para tocar com Bowie por questões financeiras, mas o camaleão do rock prometeu “resolver” a situação. E cumpriu. Foi assim que formaram a banda que relançou a carreira de Bowie com Young Americans. A última conversa entre eles, em uma festa de aniversário, foi um adeus não percebido por Carlos Alomar, que mais tarde soube da gravidade da doença de Bowie, um momento “brutal” em sua vida.
Lennon e McCartney: Encontros Inesperados
Um dia, no estúdio, John Lennon, acompanhado de May Pang, surgiu ao lado de David Bowie. Alomar, que ainda não conhecia bem Bowie, imediatamente reconheceu a lenda dos Beatles. Para a música “Fame”, Alomar já tinha o riff funk, mas faltava a letra.
Lennon, com seu violão, começou a tocar e, a cada acorde, suspirava a palavra “fame” (fama). Embora Lennon tenha saído para jantar, Alomar permaneceu no estúdio. Ao isolar a faixa de Lennon, ele pôde ouvir claramente o suspiro. “E foi assim que a música se tornou ‘Fame'”, revela Carlos Alomar. Foi seu primeiro hit número um, uma experiência surreal ao lado de Bowie e Lennon.
Após uma colaboração com Mick Jagger, Alomar foi convidado a trabalhar com Paul McCartney em seu álbum Press to Play (1986), no estúdio Hogg Hill Mill, na Inglaterra. McCartney se mostrou uma pessoa “encantadora e muito humilde”, com uma família acolhedora.
Carlos Alomar se viu em um estúdio dos sonhos, repleto de equipamentos icônicos. Enquanto admirava o local, McCartney, de forma descontraída, “bolou o maior baseado” que Alomar já tinha visto! A conversa fluiu sobre música e a experiência negra, com Alomar novamente impressionado com o profundo respeito britânico pela música R&B, blues e a cultura afro-americana em geral.
Alomar, de forma honesta, expressou não se encaixar nas duas primeiras faixas apresentadas por McCartney. Mas na terceira, ele sentiu a conexão. Começou a praticar, adicionando pequenos toques, sem saber que McCartney estava gravando tudo. Ao ouvir o álbum pronto, Alomar percebeu: “Pensei que estava só praticando!” Uma experiência maravilhosa que encapsula a espontaneidade e a genialidade desses encontros.
As histórias de Carlos Alomar são um testemunho da sua incrível jornada no coração do rock and roll. Seus encontros com essas lendas não apenas moldaram sua própria carreira, mas também contribuíram para a tapeçaria rica e diversa da música que amamos. A cada acorde e a cada lembrança, Alomar nos lembra da magia irrepetível dos momentos compartilhados com os gigantes.







