Muito antes de se tornar um artista de gravação reconhecido mundialmente, Joe Satriani já estava redefinindo a forma como se pensava sobre a guitarra. Sua influência se estendeu para além dos palcos e estúdios, manifestando-se silenciosamente nas salas de aula, onde ele moldou a visão musical de uma geração de guitarristas que se tornariam lendas.
Não se tratava apenas de aprender escalas ou técnicas. Satriani, com sua abordagem única, conseguiu inspirar e capacitar seus alunos a encontrar suas próprias vozes musicais, um feito notável dada a diversidade de estilos que emergiram de sua tutela.
A Sala de Aula de um Gênio: Forjando Estrelas
A lista de talentos que passaram pelas mãos de Satriani é impressionante e variada. Inclui o ás do jazz fusion, Charlie Hunter, que Satriani mais tarde descreveria como um “gênio”. Também estudaram com ele Kevin Cadogan do Third Eye Blind e David Bryson do Counting Crows. E, claro, o mais famoso de todos, seu amigo e agora co-colaborador Steve Vai.
O metal em particular deve muito à capacidade de Satch de traduzir o conhecimento teórico em prática. Entre seus alunos notáveis desse gênero estão Larry LaLonde, dos pioneiros do thrash Possessed e, mais tarde, do Primus; Rick Hunolt do Exodus; Kirk Hammett do Metallica (também ex-Exodus); e Alex Skolnick do Testament.
É notável que nenhum desses guitarristas soa igual ao outro, e ainda assim, todos estudaram com Joe Satriani em algum momento. Como Skolnick revelou ao Music Radar, essa foi uma das maiores lições que ele tirou de suas aulas com Satch: a busca pela identidade musical.
Alex Skolnick: O Aluno que Desvendou a Identidade
Alex Skolnick, hoje um ícone do thrash metal, lembra que encontrar sua identidade musical não foi fácil. “Eu era muito jovem. Tinha 14, 15 anos enquanto estudava com ele, e muitas coisas estavam além da minha compreensão, mas ele definitivamente me deu um roteiro”, diz Skolnick. Ele admite não ser um “aprendiz rápido” de teoria musical, mas o objetivo de absorver esse conhecimento foi plantado ali.
A capacidade de Joe Satriani de levar o conhecimento dos livros para a prática nas ruas foi um dos principais motivos pelos quais alunos como Skolnick tiraram tanto proveito de sua orientação. “Você pode ser um músico educado, mas também ter feeling e ser um ‘player de rua’ ao mesmo tempo. Eu aprendi isso”, afirma Skolnick. “E também, encontrar sua própria identidade, o que eu não fiz de imediato; isso certamente levou tempo – apenas não se prender demais aos músicos populares do momento ou a quem está recebendo mais atenção.”
Quando Skolnick começou a ter aulas com Joe Satriani, ele não sabia exatamente que tipo de guitarrista queria ser, mas sabia quem ele queria ser. Adolescente, sua obsessão era clara: Yngwie Malmsteen. “Quando entrei nas minhas aulas com Joe, eu estava obcecado por um novo guitarrista chamado Yngwie Malmsteen, e eu realmente queria ajuda para aprender as coisas dele”, conta Skolnick. “Eu queria saber: ‘Como eu toco mais rápido? Como eu faço os licks de Yngwie?’ E Joe fez um ótimo trabalho ao explicar que é bom aprender com outros músicos até certo ponto, mas você precisa definir limites e tirar o que pode deles, sem se focar demais em um único músico.”
Joe Satriani explicou que sempre haveria um músico popular do momento. Naquela época, era Yngwie. Em breve, seria Steve Vai. Antes deles, Eddie Van Halen e Randy Rhoads dominavam as atenções. “Stevie Ray Vaughan, não no hard rock, mas ainda assim… Lembro-me de Joe mencionando todos esses músicos, e sempre haverá aquele músico do mês, e então, em alguns anos, Joe era o cara! Foi incrível!”, recorda Skolnick, sobre a ascensão de seu próprio professor.
O Legado de um Professor Visionário
Joe Satriani nem sempre foi “o cara”. Seu próprio avanço exigiu trabalho duro e, olhando para trás, Skolnick lembra que havia uma certa incredulidade entre os alunos que quase os desmotivava a seguir carreira na música. “As pessoas diziam: ‘Meu Deus, se esse cara está no fundo de uma loja de guitarras, ensinando, o que isso diz sobre o negócio da música?’ Mas, é claro, em poucos anos, todos saberiam seu nome – como deveriam – e esse era Joe Satriani.”
Skolnick descobriu Joe Satriani por meio de outro de seus professores, Danny Gill, embora as chances fossem grandes de que ele o tivesse conhecido de uma forma ou de outra, pois as pessoas já falavam dele. “Eu sabia que ele tinha estudado com esse guitarrista na cidade que tinha a reputação de ser, tipo, um músico sério”, diz Skolnick. “Era como o equivalente a estudar com um professor de piano clássico ou um professor de violino clássico – exceto que esse cara tocava guitarra elétrica. Ele tocava rock ’n’ roll. Mas ele tinha aquela seriedade e disciplina dos artistas clássicos. Isso era tudo o que eu sabia sobre ele.”
Por admissão do próprio Skolnick, as lições com Joe Satriani levaram algum tempo para serem totalmente absorvidas. Foi só depois de se juntar aos thrashers Legacy (que logo mudaria o nome para Testament) que ele pôde realmente colocar as lições em prática. Gravar os primeiros discos do Testament foi um divisor de águas. “Entrar para gravar os primeiros discos do Testament, sendo constantemente parado pelo engenheiro. ‘Pare, afine!’ Certo. ‘Mas estou tocando ótimo!?’ ‘Tem um problema de afinação.’ Pegar o hábito de verificar constantemente sua afinação, ouvir os outros instrumentos, não apenas a si mesmo, levou um tempo para eu absorver tudo isso”, explica.
“Mas acho que, em certo ponto, as lições de Joe simplesmente começaram a fazer sentido. No final da minha adolescência, início dos 20 anos, realmente floresceu. Então, sim, não finjo ter sido o aluno estrela de Joe, mas ele plantou essas sementes e elas realmente começaram a florescer mais tarde.” O legado de Joe Satriani, como mestre e mentor, é tão profundo quanto sua própria discografia lendária.







