Muitos culpam Yoko Ono pela separação dos Beatles, alegando que ela transformou John Lennon de compositor pop em um “hippie” politicamente engajado. Essa visão, no entanto, é equivocada. John Lennon, em diversas ocasiões, confessou a necessidade de construir uma persona pública, especialmente no início da carreira nos Estados Unidos. Essa encenação, embora relacionada à imagem da banda, revelava algo mais profundo: as restrições impostas à sua criatividade. Ele próprio admitiu: “Não éramos tão abertos e sinceros quando não tínhamos o poder de ser. Tínhamos que ir com calma. Tivemos que cortar o cabelo para sair de Liverpool. Tivemos que usar ternos para aparecer na TV. Tivemos que fazer concessões.”
Os Beatles e as Pressões da Fama
A trajetória musical de Lennon começou com canções pop como “She Loves You” e “I Wanna Hold Your Hand”. Eram músicas alegres, divertidas, perfeitas para o público da época. Mas, com a maturidade e a influência de artistas como Bob Dylan, Lennon sentiu a necessidade de expressar-se com mais autenticidade. Essa busca pela honestidade, no entanto, encontrava resistência. A bem estabelecida imagem dos Beatles e a gravadora impunham limites criativos. Músicas como “Help!”, apesar de suas nuances, representavam o máximo de sinceridade que Lennon podia expressar naquele momento. Somente com o tempo e maior controle sobre sua carreira, ele se sentiu livre para criar com mais liberdade. “Tínhamos que nos adaptar para entrar, e então ganhar um pouco de poder e dizer: ‘É assim que somos'”, disse Lennon. “Tivemos que falsificar um pouco, mesmo que não percebêssemos na época”.
Yoko Ono: A Catalisadora da Verdade
É aqui que a narrativa sobre Yoko Ono se torna distorcida. Ela não mudou John Lennon; ela simplesmente o ajudou a liberar a versão de si mesmo que sempre esteve latente. O lado de Lennon que ansiava por falar sobre si mesmo, sobre política e sociedade, finalmente recebeu permissão para emergir das sombras, e Ono foi quem forneceu a luz.
Inúmeras vezes, Yoko Ono ouviu afirmações sobre o caráter revolucionário da composição de Lennon. A ironia é que ela nunca precisou dessas afirmações. Ela sempre reconheceu a genialidade revolucionária de Lennon e se empenhou em estimulá-la.
Quando solicitada a escolher suas canções favoritas de John Lennon, a maioria era de sua carreira solo, pós-Beatles. Isso porque essas músicas refletem melhor o homem de quem se apaixonou. Uma de suas preferidas do início dos anos 70 é “Gimme Some Truth”, uma canção de protesto que criticava os políticos sem rodeios. Yoko Ono a adorava porque representava uma nova virada para Lennon. Ao expressar seu apreço pela música, suas palavras foram simples, mas eficazes: “Ele era à frente do seu tempo“.
A Verdadeira Herança de Lennon
A contribuição de Yoko Ono não foi a de transformar Lennon, mas a de o permitir ser ele mesmo. Ela não o desviou de sua trajetória, mas o auxiliou a encontrar sua própria voz e expressão artística mais autêntica. A sua influência foi crucial para a libertação da criatividade e da mensagem de Lennon, permitindo que ele deixasse uma herança musical e artística que continua a inspirar e desafiar até hoje. A imagem pública, construída com concessões, cedeu lugar à verdadeira essência artística de John Lennon, um legado que se estende para além dos anos 60 e 70, demonstrando sua visão de futuro e sua profunda compreensão das complexidades humanas e políticas de seu tempo. A escolha de “Gimme Some Truth” por Yoko Ono como uma das canções favoritas não é apenas uma preferência pessoal, mas uma reafirmação da importância de permitir que artistas expressem suas convicções com liberdade e autenticidade.
O Legado de uma Parceria Criativa
A relação entre John Lennon e Yoko Ono transcende a ideia de uma simples influência. Foi uma parceria criativa, onde ambos se influenciaram mutuamente e colaboraram na construção de um legado artístico notável. Lennon, liberto das amarras da imagem construída para os Beatles, encontrou em Ono uma aliada que o encorajou a expressar-se com total sinceridade, resultando em obras que até hoje ressoam com grande impacto, provando a visão profética e a força de suas criações. A história dessa parceria complexa e frequentemente mal interpretada demonstra a importância do apoio e do incentivo para o desenvolvimento pleno de um artista e o seu impacto duradouro na história da música. A música escolhida por Yoko Ono como representativa da visão profética de John Lennon serve, portanto, como um testemunho desta sinergia única e da força de sua colaboração, que definiu um novo rumo na música e na arte do século XX.