É fascinante como, por vezes, um artista pode ser a última pessoa a ter uma opinião imparcial sobre a própria obra. Imersos em experiências pessoais, questões de autoestima e toda a subjetividade do processo criativo, a visão deles pode ser, ironicamente, a mais distorcida. Quando se trata de Kurt Cobain, o enigmático líder do Nirvana, essa regra se aplica de forma contundente ao seu álbum de estreia, “Bleach”.
Em 1992, apenas três anos após o lançamento desse disco que marcou o início de uma era, Cobain já parecia tê-lo deixado para trás. Enquanto a banda promovia o revolucionário “Nevermind”, sua perspectiva sobre “Bleach” era, no mínimo, desdenhosa.
A Visão Crítica de Kurt Cobain Sobre “Bleach”
“Bleach parecia ser realmente unidimensional. Ele tem o mesmo formato”, declarou Cobain em uma entrevista. Essa era uma observação peculiar para um álbum que catapultou o Nirvana ao cenário musical, tornando-os rapidamente novos ícones do grunge.
Na mente de Kurt Cobain, a banda estava avançando, e o passado, aparentemente, precisava ser pisoteado para que pudessem subir para um novo patamar. Ele não poupava críticas, descrevendo “Bleach” como maçante: “Todas as músicas são lentas e grunges, e elas são afinadas em notas realmente baixas, e eu gritei muito.”
Uma descrição simplista e que falha em capturar a essência crua e visceral do que o álbum representava para o público e para a própria história do rock.
O Triunfo Inegável de um Álbum de Estreia
A avaliação de Cobain, no entanto, ganha nuances ao considerarmos alguns pontos cruciais. Primeiramente, o próprio cantor parecia não apreciar o fato de que “Bleach” era um álbum de estreia. Para uma banda que, apenas alguns anos antes, ensaiava em uma garagem, ter uma coleção de 11 músicas gravadas já era um triunfo notável. E, neste caso, foi um triunfo que lhes rendeu uma atenção considerável.
Mesmo com o álbum enfrentando dramas com a gravadora e, consequentemente, não sendo bem promovido, ele conquistou a atenção da crítica e um culto de seguidores, especialmente nas rádios universitárias. Foi essa base sólida que permitiu ao Nirvana subir de nível em seu segundo lançamento e alcançar o estrelato global com “Nevermind”.
“Bleach” deve ser visto pelo que realmente foi: um lançamento essencial, uma vitrine que simplesmente mostrava o que a banda fazia de melhor na época – tocar grunge. O disco soa como um álbum ao vivo, e isso porque, naquele momento, eles eram uma banda ao vivo, pura e simplesmente. Talvez o que Kurt Cobain via como “unidimensional” fosse, na verdade, apenas um reflexo de sua crueza e autenticidade inabaláveis.
Além da Superfície: O Legado de “Bleach”
Contudo, pelos olhos de Kurt Cobain, ciente do que o público ainda não sabia, “Bleach” foi de certa forma limitado pela própria banda. “Ao mesmo tempo em que estávamos gravando, tínhamos muito mais músicas, [como ‘About a Girl’]. Na verdade, ‘Polly’ também foi escrita naquela época. Acontece que escolhemos colocar canções mais abrasivas no álbum Bleach”, ele explicou.
Isso indica que havia mais dimensão e diversidade prontas, o que ajuda a entender por que Cobain parecia descartar o disco tão rapidamente, já que sua mente criativa estava claramente trabalhando em algo diferente.
Tudo isso nos leva a uma pergunta sem resposta. O Nirvana teria alcançado o mesmo sucesso se tivesse lançado “Nevermind” como seu primeiro álbum? “Nevermind” teria sido tão bem-sucedido se fosse o debut da banda? Ou eles precisavam primeiro criar uma fundação crucial com o grunge simples e direto de “Bleach” para depois progredir?
Jamais saberemos. Mas, quanto ao som em si, ao ouvir “Bleach” hoje, ele pode até ser mais homogêneo que os outros álbuns da banda, mas isso não o torna menos cativante ou menos essencial no legado musical do Nirvana. Ele é a prova do poder bruto e intransigente que os impulsionou para a imortalidade do rock.







