No vasto panorama da história musical britânica, poucos artistas se destacam com a singularidade e o impacto cultural de Kate Bush. Ao longo de oito álbuns e mais de duas décadas, ela não apenas moldou a música popular, mas a reinventou, deixando um legado que ressoa profundamente até hoje. Sua arte, muitas vezes intensamente pessoal e teatral, fascina uma audiência global, curiosa por desvendar os mistérios de uma mente criativa que parece existir em seu próprio universo. Desde cedo, Kate Bush já demonstrava ser uma força da natureza, uma artista “totalmente formada” que surgiu para desafiar as convenções. Ela se tornou uma heroína para inúmeros artistas, homens e mulheres, que veem em sua trajetória um modelo de originalidade e integridade artística. Este artigo explora a jornada dessa mulher extraordinária e a música que a tornou um ícone.
A Formação de Uma Lenda: Raízes e Influências Incomuns
Crescendo em uma parte tranquila de Kent, nos arredores de Londres, a jovem Kate se viu cativada pela música moderna. Nos anos 60 e 70, em plena efervescência cultural, ela absorveu uma mistura eclética de tradições e estilos, forjando uma identidade musical que desafiava classificações. Ouvindo sua obra, é notável como ela é uma das raras pessoas verdadeiramente originais. Embora ela mesma mencione Elton John e Carole King como influências – artistas que dominavam o piano e a composição –, a sonoridade de Kate Bush transcendia essas referências, incorporando elementos do folk e do inglês *music hall*. Ela era uma peça única, sem encaixe em categorias preexistentes de cantoras pop britânicas como Dusty Springfield ou Lulu.
Desde muito jovem, Kate Bush compunha suas próprias músicas no piano de casa. Sua vida mudaria drasticamente após uma audição informal com um amigo da família, David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd. Gilmour, buscando novos talentos, ficou intrigado o suficiente para investir em demos masterizadas em Abbey Road, com uma orquestra de 30 músicos. Produziram três faixas, incluindo “The Man with the Child in His Eyes” e “Saxophone Song”. Essas demos impressionaram a EMI, que ofereceu um contrato de desenvolvimento, algo incomum para a época, especialmente para uma artista feminina. Esse tempo e liberdade foram cruciais para Kate Bush, que deixou a escola para focar em música, apresentações ao vivo e, de forma decisiva, treinar com o dançarino e mímico Lindsay Kemp, que abriu um novo mundo de expressão corporal para sua arte.
A Explosão Criativa: De “Wuthering Heights” a “Lionheart”
Em meados de 1977, Kate Bush estava pronta para gravar seu álbum de estreia, “The Kick Inside”. Com apenas 19 anos, ela já impressionava os músicos de estúdio com seu talento para composição e letras. A EMI planejava lançar “The Man with the Child in His Eyes” como primeiro single, mas Kate insistiu em “Wuthering Heights”, uma canção etérea baseada no romance de Emily Brontë. Sua visão prevaleceu e, em 17 de fevereiro de 1978, a Grã-Bretanha conheceu a voz assombrosa e única de Kate. A música, com seus vocais que subiam e desciam as oitavas de forma dramática, tornou-se um fenômeno, a primeira canção número um escrita por uma mulher britânica.
O sucesso estrondoso de “Wuthering Heights” catapultou Kate Bush ao estrelato. O segundo single do álbum, “The Man with the Child in His Eyes”, mostrou um lado mais melódico e ambíguo da artista, explorando uma sensibilidade e sexualidade femininas ainda pouco reconhecidas na música mainstream da época. Apesar do sucesso, muitos questionavam se ela seria capaz de replicar tal feito. Ainda em 1978, ela lançou seu segundo álbum, “Lionheart”, frequentemente visto como uma continuação de seu trabalho anterior. Embora apressado, “Lionheart” entregou pérolas como “Wow”, uma canção sobre a glória e a solidão da vida de um ator, que demonstrava a crescente teatralidade da artista. A culminação dessa fase foi a “Tour of Life” em 1979, sua única turnê até hoje, que revolucionou a forma como os shows pop eram encenados com seus múltiplos palcos, figurinos elaborados e o uso pioneiro de um microfone de cabeça. Foi um espetáculo grandioso, mas exaustivo, que a levou a se retirar dos palcos por anos.
Inovação e Reflexão: A Era “The Dreaming” e “Hounds of Love”
A Mudança de Rumo: De Temas Sociais à Revolução Tecnológica
Após a turnê, Kate Bush começou a olhar para fora de si mesma. O single “Breathing” (1980), por exemplo, abordava a ameaça nuclear através dos olhos de um feto, uma perspectiva chocante e visceral. Em contraste, “Babushka” trazia uma melodia mais acessível, uma fábula humorística e comovente sobre fidelidade. Seu terceiro álbum, “Never for Ever”, foi o primeiro de uma artista britânica a alcançar o topo das paradas, solidificando seu status. Com faixas como “Army Dreamers”, um lamento anti-guerra, Kate Bush demonstrava sua capacidade de abordar temas sérios com sensibilidade.
O início dos anos 80 marcou uma revolução musical com a ascensão dos sintetizadores. Kate, que começou a produzir seus próprios álbuns, abraçou essa nova tecnologia. Ela foi uma das primeiras a adquirir um Fairlight CMI, um sintetizador de amostragem que permitia manipular sons de maneiras antes inimagináveis. Essa ferramenta se tornou central na criação de “The Dreaming” (1982), seu quarto álbum. Influenciada por Peter Gabriel, que compunha a partir de ritmos, Kate Bushexplorou batidas eletrônicas e texturas sonoras complexas. O álbum, incluindo o single “Sat in Your Lap”, foi considerado “louco” pela EMI e dividiu a crítica, mas hoje é visto por muitos como uma obra poderosa e visionária.
O Apogeu Criativo: O Impacto de “Hounds of Love”
Após o experimental “The Dreaming”, Kate Bush se retirou novamente para construir seu próprio estúdio, buscando total controle sobre sua arte. Em 1985, ela retornou com “Hounds of Love”, amplamente considerado sua obra-prima. O single “Running Up That Hill (A Deal with God)” foi um sucesso estrondoso, alcançando o número três nas paradas britânicas e se tornando seu maior hit desde “Wuthering Heights”. Kate travou uma batalha para que essa canção, com seu título original “A Deal with God”, fosse lançada, e sua vitória foi crucial. A faixa combinava sintetizadores e batidas eletrônicas com uma emoção genuína, explorando a ideia de trocar de lugar com um ente querido para entender sua perspectiva.
“Hounds of Love” estreou em primeiro lugar e é um álbum seminal dos anos 80, combinando dance music emergente, world music e letras profundas. A segunda parte do disco, conhecida como “The Ninth Wave”, é uma suíte conceitual sobre uma mulher naufragada, explorando temas de morte e renascimento com uma atenção minuciosa a cada detalhe sonoro. Outro destaque é “Cloudbusting”, inspirada no livro “A Book of Dreams” de Peter Reich, que narra a relação mágica entre um filho e seu pai inventor do “cloudbuster”. O videoclipe, estrelado por Donald Sutherland como o pai, é um tributo emocionante ao poder da memória e do amor.
Maturidade e Retiro: De “The Sensual World” a “The Red Shoes”
Após o sucesso de “Hounds of Love” e o lançamento da compilação “The Whole Story”, Kate Bush novamente se afastou dos holofotes para compor seu próximo trabalho. Em 1989, ela lançou “The Sensual World”, um álbum que refletia uma nova maturidade artística. Influenciada pela world music, o disco contou com a participação do Trio Bulgarka, cujas vozes etéreas se misturavam à dela. A faixa-título, originalmente inspirada no monólogo final de Molly Bloom no “Ulisses” de James Joyce (cuja permissão para usar o texto foi negada), é uma expressão lírica da sensualidade, transcendendo a mera luxúria. Outros destaques incluem a comovente “This Woman’s Work”.
Em 1993, Kate Bush lançou “The Red Shoes”, um álbum que, de certa forma, parecia mais convencional. O disco se destacou pelas colaborações com artistas como Eric Clapton, Prince e Lenny Henry, algo incomum em sua discografia, que alguns críticos consideraram diluir sua visão única. No entanto, o álbum também carregava uma profunda tristeza, com referências à dor e à perda, coincidindo com a morte de sua mãe. O single “Rubberband Girl” trazia uma energia pop mais leve e contagiante. Um curta-metragem baseado no álbum, também dirigido e estrelado por Kate Bush, foi lançado, mas não obteve sucesso crítico ou comercial, o que afetou sua confiança e contribuiu para mais um longo período de silêncio.
O Retorno Triunfal: O Fenômeno “Aerial”
Após “The Red Shoes”, muitos acreditavam que Kate Bush havia encerrado sua carreira musical, dedicando-se à família por 13 anos. No entanto, em dezembro de 2004, uma mensagem discreta ao seu fã-clube anunciou o tão esperado oitavo álbum. A notícia causou um frenesi na imprensa e entre os fãs, culminando no lançamento de “King of the Mountain” em outubro de 2005. O single, com suas alusões a Elvis Presley e reflexões sobre a fama e o desperdício, marcou um retorno triunfal, alcançando o terceiro lugar nas paradas.
O álbum “Aerial”, lançado em novembro de 2005, foi um sucesso estrondoso, chegando ao terceiro lugar. A longa espera de 13 anos gerou uma antecipação sem precedentes, e o álbum, aclamado como um dos melhores de sua carreira, não decepcionou. “Aerial” é um álbum duplo que reflete as experiências de Kate como mãe, a sensação de isolamento e redenção. Músicas como “Mrs. Bartolozzi”, que ousadamente canta sobre uma máquina de lavar, capturam a essência da vida doméstica com uma beleza introspectiva. O álbum é um testemunho de uma artista que, após um período de perda, encontrou um “céu ensolarado” através da maternidade, chocando críticos e fãs e reafirmando seu lugar como uma das vozes mais inovadoras e duradouras da música moderna.
Ao longo de mais de três décadas, Kate Bush tem sido uma força imprevisível e um gênio inigualável na música. Sua capacidade de transcender clichês, de operar fora dos parâmetros estabelecidos pela indústria pop, e de infundir sua arte com uma intensidade e privacidade únicas, garante seu lugar como um verdadeiro ícone. Ela não apenas fez música; ela criou um universo sonoro e visual próprio, convidando-nos a explorar as profundezas de sua alma artística, um privilégio que continua a inspirar e encantar gerações.
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