A história da música é repleta de encontros lendários, mas poucos são tão fascinantes quanto o de Jimmy Cliff e Jimi Hendrix. Dois guitarristas destros, mas com alma canhota, ambos buscando seu lugar no efervescente cenário musical de Londres. O que começou como uma simples abertura de show, transformou-se em uma amizade profunda e um intercâmbio de ideias que ressoou por gerações.
Jimmy Cliff, o gigante do reggae que nos deixou recentemente aos 81 anos, relembrou esse momento icônico. No início dos anos 60, enquanto ele tentava firmar seu nome, foi convidado a dividir o palco com um novo talento. “Tinha esse guitarrista novo, você se importa se ele abrir para você?” perguntaram-lhe antes de um show em Nottingham. O convidado era ninguém menos que Jimi Hendrix.
O Palco Dividido e a Humildade de um Gênio
A configuração era incomum. Cliff faria dois sets, e Hendrix tocaria no intervalo entre eles. “Eu não me importei. Eu não o conhecia”, disse Cliff. Após seu primeiro set, Hendrix se aproximou, e o que se seguiu foi uma conversa memorável que revelou a inesperada humildade de um dos maiores guitarristas de todos os tempos.
“Ele veio até mim e disse: ‘Qual o nome da sua banda, cara?’ Eu disse: ‘Jimmy Cliff e o Shakedown Sounds’, e ele disse: ‘Maaaaan, você sabe cantar! Eu não consigo cantar. Eu só consigo tocar minha guitarra.'” Essa fala, para quem conhece a potência vocal de Hendrix, pode parecer piada, mas ele era conhecido por subestimar seus próprios talentos vocais.
“Aparentemente, ele não tinha tanta confiança em seu canto. Mas então ele subiu ao palco e arrasou“, contou Cliff, rindo. A performance de Hendrix, que deixava a plateia em êxtase, contrastava com sua percepção pessoal. A partir daquele momento, uma amizade genuína floresceu entre os dois.
“Depois disso, nos tornamos bem próximos”, recordou Cliff. “Toda vez que voltávamos de um show, parávamos em um café e conversávamos sobre como foram nossos shows e como as coisas estavam indo. Ele era uma das pessoas mais gentis que você poderia encontrar.” Dois estranhos em uma terra estranha, um jamaicano e um americano, encontrando consolo e inspiração um no outro.
De Kingston a Londres: A Trajetória de Jimmy Cliff
A jornada de Jimmy Cliff para se tornar uma figura pivotal na popularização do reggae foi longa e cheia de reviravoltas. Ainda menino, ele construiu sua primeira guitarra de bambu e escreveu suas primeiras canções. Aos 14 anos, mudou-se para Kingston e convenceu Leslie Kong, co-proprietário de uma sorveteria, a investir na indústria musical. Kong lançou o selo Beverley’s com Cliff como seu primeiro artista.
Seu terceiro single, “Hurricane Hattie”, lançado em 1962, impulsionou-o para o reconhecimento. Essa popularidade o levou a Londres, um centro musical em ebulição onde a diversidade era a regra. “O que mais havia para pessoas como eu fazerem?”, Cliff refletiu sobre sua carreira musical. Na Jamaica, a polarização socioeconômica significava poucas opções para os mais pobres.
“Mas para muitas pessoas, elas querem mais. Como a indústria musical era localizada, estava ali, na porta, pessoas como eu começaram a pensar em tentar porque você apenas batia em uma porta e perguntava”, explicou. Essa mentalidade de “música é para todos, podemos todos fazer isso” ecoava a cena punk de Londres nos anos 70, incentivando a experimentação e a criatividade.
O Legado do Reggae e um Vínculo Duradouro
Uma década após seu primeiro sucesso musical, Cliff estrelou em “The Harder They Come” (1972), o primeiro grande filme comercial da Jamaica. Esse drama policial é amplamente considerado o filme que apresentou o reggae à Inglaterra e aos EUA, abrindo caminho para Bob Marley e outros grandes nomes do gênero. A mudança para o Reino Unido foi crucial para Cliff alcançar o sucesso global.
“Eu tive que me mudar para o Reino Unido para ter os grandes sucessos. Isso era o que todo mundo fazia”, disse Cliff. Londres era um caldeirão cultural, um “grande e excitante mix” de artistas de diferentes origens – Beatles, Stones, americanos, africanos, e caribenhos – todos contribuindo para uma explosão de criatividade.
Em 1967, o cenário havia se invertido: Jimmy Cliff retornou a Nottingham, mas desta vez para apoiar Jimi Hendrix no Beachcomber Club. A força de sua amizade era evidente, e o impacto que ambos tiveram na indústria musical foi ainda mais significativo. Cliff, com seu reggae enraizado e sua voz poderosa, e Hendrix, com sua guitarra revolucionária, deixaram um legado indelével que continua a inspirar artistas e fãs em todo o mundo. A música perdeu uma de suas vozes mais autênticas, mas seu espírito e suas canções viverão para sempre.







