AC/DC: O Legado Imortal de Duas Vozes Icônicas do Rock

A história do AC/DC é um monumento de volume, forjada em riffs monolíticos e ritmos trovejantes que definiram o rock por mais de quatro décadas. Contudo, por trás do rugido ensurdecedor, existe um legado do AC/DC sutil, uma narrativa de respeito enraizada na força de duas vozes icônicas que moldaram seu som eterno.

No início dos anos 70, o rock and roll australiano era uma fera selvagem. Nesse cenário, os irmãos Young, Malcolm e Angus, forjaram um som afiado e brutalmente eficaz. Eles tinham os riffs, a energia e uma visão clara para uma banda que despiria o rock de excessos, deixando apenas sua essência eletrizante.

Bon Scott: A Essência Crua e Poética do AC/DC

Eles precisavam de um frontman, uma voz que pudesse igualar a energia primal de suas guitarras. Encontraram-no em Ronald Belford Scott, um escocês criado na Austrália, mais conhecido como Bon. Mais velho e experiente na cena musical australiana, Bon era um veterano carismático, com histórias de vida dura que logo se tornariam a alma de suas letras.

Quando Bon se juntou ao AC/DC em 1974, foi uma fusão perfeita. O poder bruto da banda ganhou um poeta das ruas, um filósofo do cotidiano que articulava os sonhos e frustrações da audiência com sagacidade e autenticidade. Angus Young recordou que Bon era “um personagem, um pouco malandro, mas com uma voz incrível. Ele tinha o som certo”.

A voz de Bon era mais do que potente; era infundida de experiência. Suas letras não eram fantasias, mas sobre a vida real: “Dirty Deeds”, “High Voltage” e as batalhas diárias. Ele escrevia com uma franqueza e humor únicos, narrando as turnês intermináveis, hotéis baratos e a luta por reconhecimento. Malcolm Young percebeu que Bon dava à música um rosto humano, uma personalidade inconfundível.

Essa sinergia criou um ato ao vivo temível. Angus era o foco visual, mas Bon era o mestre de cerimônias. Ele comandava o palco com autoridade, fazendo os fãs se sentirem parte da gangue. Era o irmão mais velho, brincalhão e de vida intensa.

“It’s a Long Way to the Top”: O Hino de Uma Jornada

Em 1975, o AC/DC era uma banda de estrada calejada, cruzando a Austrália incansavelmente. Foi nesse período de suor e labuta que criaram seu hino: “It’s a Long Way to the Top (If You Wanna Rock ‘n’ Roll)”. A faixa nasceu de um riff pulsante, mas Bon a elevou com letras que eram um diário de sua existência: “Riding down the highway… getting robbed, getting stoned, getting beat up, broken boned”.

O golpe de mestre veio da ideia de Bon de incorporar a gaita de fole, um instrumento raro no hard rock. Angus recordou que, mesmo exausto, Bon tirou o som perfeito. A canção se tornou um hino de desafio e honra, e o videoclipe lendário, filmado em Melbourne, capturou o espírito renegado da banda. Ao vivo, era um espetáculo que solidificava a identidade única do AC/DC.

Brian Johnson: A Resiliência e o Novo Capítulo do AC/DC

No final dos anos 70, o “longo caminho para o topo” culminou no sucesso global de “Highway to Hell” (1979). O AC/DC estava no auge, prestes a conquistar o mundo. Mas em 19 de fevereiro de 1980, a tragédia atingiu: Bon Scott foi encontrado morto em Londres, aos 33 anos, por intoxicação alcoólica aguda. A banda ficou em choque, a ideia de continuar parecia impossível; Bon era a voz, o letrista, o irmão.

Angus Young descreveu o abismo de perda, mas Malcolm insistiu que deviam seguir em frente, honrando o desejo dos pais de Bon. A busca por um novo cantor foi sombria, procurando uma voz poderosa e uma personalidade forte, mas não um clone de Bon. Então, surgiu a recomendação de Brian Johnson, vocalista do Geordie, um artista que o próprio Bon havia admirado anos antes.

A audição de Brian revelou uma química imediata. Sua voz, um rugido agudo forjado em clubes operários, era diferente da de Bon, mas se encaixava perfeitamente. Malcolm e Angus sabiam que haviam encontrado seu homem. Brian aceitou o desafio, deixando claro: “Não estou tentando ser Bon. Não consigo. Ninguém consegue. Eu vou ser apenas eu mesmo.”

Esse profundo respeito pelo predecessor moldaria seu tempo na banda. Desde o início, Brian estabeleceu uma regra pessoal: ele nunca cantaria “It’s a Long Way to the Top” ao vivo. Para ele, era “a música do Bon. É o epitáfio dele… uma música sagrada”. A banda compreendeu a homenagem e aposentou o hino, preservando a memória de Bon.

Em vez de copiar o passado, o AC/DC e Brian Johnson forjaram um novo futuro. Voaram para as Bahamas para gravar um novo álbum. Brian, intimidado pela tarefa de escrever letras após um mestre como Bon, canalizou o luto e a ocasião em seu trabalho. O resultado foi “Back in Black”, lançado apenas cinco meses após a morte de Bon.

Com sua capa preta e austera, “Back in Black” foi uma obra-prima de desafio e lembrança. Os sinos de “Hell’s Bells” soavam como um tributo fúnebre. As letras de Brian, um triunfo, homenagearam o estilo de vida rock and roll de Bon, enquanto estabeleciam sua própria voz. O álbum se tornou um dos mais vendidos de todos os tempos, validando a decisão da banda de continuar e impulsionando o AC/DC ao superestrelato global.

Nos shows, as músicas da era Bon Scott, como “Highway to Hell” e “Whole Lotta Rosie”, foram celebradas por Brian Johnson, que as interpretava com paixão, honrando os originais. Angus Young via essas performances como um elo vital com o passado: “É para Bon. É sempre para Bon. Toda noite, o espírito dele está nessas músicas.”

A ausência de “It’s a Long Way to the Top” do setlist tornou-se um tributo silencioso, uma linha que não seria cruzada. Era o memorial particular da banda, um testemunho do vínculo inabalável com o homem que os ajudou a dar os primeiros passos. O legado do AC/DC perdura, uma história vibrante de resiliência e a confluência de duas vozes inesquecíveis que, cada uma à sua maneira, lideraram o caminho para o topo do rock and roll mundial.

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