5 Tecladistas Que Moldaram Clássicos do Rock
5 Tecladistas Que Moldaram Clássicos do Rock

5 Tecladistas Que Moldaram Clássicos do Rock

A história do rock and roll é frequentemente pintada com pinceladas elétricas amplas, uma mitologia construída em torno do vocalista no palco e do guitarrista adorando seu amplificador. Somos levados a crer que o som dos anos 60 e 70 nasceu da fricção entre a voz e a guitarra de seis cordas, traçando a linhagem do blues do Delta do Mississippi até os estádios do mundo através de nomes como Clapton e Hendrix.

Mas se você remover os solos de guitarra e isolar as trilhas, perceberá que a verdadeira fundação harmônica, a própria cola que mantém essas catedrais sônicas unidas, nem sempre vem da frente do palco. Ela surge do fundo, por trás de uma parede de amplificadores, tocada por homens muitas vezes vistos como auxiliares, temporários ou até mesmo descartáveis.

Hoje, vamos aumentar o volume para celebrar os músicos que foram essenciais para a química das maiores bandas da história. São os **heróis ocultos do rock**, cinco tecladistas que moldaram o rock clássico e cuja genialidade era indispensável.

1 – Nicky Hopkins: O Alquimista das Teclas do Rock

Em 4 de junho de 1968, nos Olympic Sound Studios de Londres, a atmosfera estava densa com fumaça de cigarro e frustração criativa. Os Rolling Stones lutavam para gravar uma nova faixa, que começou como uma balada folk. Mick Jagger dedilhava um violão, buscando um pulso inexistente. A música estava morrendo.

Então, uma mudança. Keith Richards sugere um ritmo de samba. Sentado ao piano, uma figura pálida e magra, Nicky Hopkins, começa a tocar. Ele não toca acordes; ele toca ritmo, tratando o piano como um instrumento de percussão, martelando staccatos agudos no registro superior. Richards os chamaria de **”tiaras de diamante”**, embelezamentos brilhantes que cortavam a lama da mixagem.

5 Tecladistas Que Moldaram Clássicos do Rock

De repente, a música se transforma. Torna-se “Sympathy for the Devil”. Hopkins era o “pistoleiro de aluguel” definitivo, um pianista classicamente treinado com um toque tão delicado e um senso melódico tão profundo que se tornou a primeira escolha para todas as grandes bandas britânicas da época. Ele tinha um “sentimento intuitivo de onde o piano deveria se encaixar”.

Sua vida, no entanto, foi definida por uma cruel ironia: a doença de Crohn o hospitalizava frequentemente, tornando as turnês impossíveis. Enquanto seus pares viajavam de jatinho, Hopkins estava confinado a Londres, preso ao estúdio. Suas impressões digitais estão em todo lugar: o piano lânguido de “Sunny Afternoon” dos Kinks, o solo elétrico frenético em “Revolution” dos Beatles. Ele não acompanhava a banda; ele interpretava o zeitgeist. Seus álbuns solo foram aclamados, mas comercialmente ignorados. A indústria não sabia como “comercializar um músico de sessão”.

2 – Ian Stewart: O Coração Purista dos Stones

Na mitologia dos Rolling Stones e do rock mundial, um título é frequentemente jogado: o “Sexto Stone”. No caso de Ian Stewart, ou “Stu”, era literal. Ele fundou a banda, atendeu ao anúncio de Brian Jones, agendou os primeiros ensaios, dirigia a van. Era o coração do grupo.

Mas, em maio de 1963, o empresário Andrew Loog Oldham o demitiu. Stu, com seis anos a mais que Mick Jagger, corpulento e sem a “estética pop” que Oldham buscava, aceitou a demissão com uma humildade notável. Ele permaneceu como gerente de estrada e pianista, tocando por trás da cortina, mantendo a banda fiel às suas raízes.

A influência de Stewart não era apenas logística, mas um dogma musical. Um fanático por boogie-woogie, ele tinha uma regra: **não tocava acordes menores**, chamando-os de “música chinesa”. Ele os considerava pretensiosos e antiéticos ao espírito do blues. Quando Jagger e Richards escreviam baladas melancólicas, Stu simplesmente se levantava e ia embora.

Essa teimosia forçava a banda a trazer outros músicos, mas garantia que, quando Stu tocava, a faixa balançava com um ritmo autêntico e feroz. Ouça “Brown Sugar” ou “Honky Tonk Women”: aquele piano propulsivo é a **teimosia de Ian Stewart**. Ele manteve os Stones “honestos”, ancorando-os no blues. Em 1971, no estúdio com o Led Zeppelin, ele sentou-se a um piano desafinado e tocou, criando “Boogie with Stu”, imortalizando seu nome. Quando os Stones foram induzidos ao Hall da Fama, pediram que Stu fosse incluído. O “homem invisível” estava finalmente no pôster.

3 – Billy Preston: A Alma Funk que Uniu Lendas

Em janeiro de 1969, os Beatles estavam desintegrando. As sessões em Twickenham para um concerto televisivo nunca realizado eram um desastre. George Harrison, marginalizado, saiu da banda. Ao retornar, ele trouxe uma “apólice de seguro”: um velho amigo que conheceu em um show de Ray Charles, Billy Preston.

Preston, um prodígio do Texas, criado no gospel e R&B, tinha conhecido os Beatles anos antes em Hamburgo. Sua presença nas sessões foi instantânea. Como um convidado que faz irmãos brigões se comportarem, Preston forneceu a cola que faltava. Em “Get Back”, seu Fender Rhodes elétrico não apenas acompanha; ele define a canção, com um solo cintilante, percussivo e fluido. Ele deu aos Beatles a alma que eles não conseguiam gerar sozinhos. “Get Back” foi lançado como “The Beatles com Billy Preston” – o único músico a compartilhar a autoria em um single da banda.

A jornada de Preston não terminou com os Fab Four. Em meados dos anos 70, os Rolling Stones, tornando-se uma “gigante global de turnês de rock”, precisavam de uma âncora e contrataram Preston. Ele não era apenas um músico de apoio, mas um co-estrela, com dois slots para suas próprias músicas. Ele dançava no palco, trocando versos com Mick Jagger, tocando com uma ferocidade que forçava os Stones a elevar seu nível.

Preston trouxe um elemento funk que permeou o álbum “Black and Blue”. Ele também foi um inovador, em 1972, ele lançou “Outa-Space”, correndo um clavinet através de um pedal wah-wah, técnica geralmente reservada para guitarras. Billy Preston caminhava em uma linha que poucos outros podiam: negro em um mundo de rock branco, gay em uma indústria heterossexual, e um crente gospel em um mundo de hedonismo. Ele foi o ingrediente secreto que duas das maiores bandas da história usaram para se salvar.

4 – Al Kooper: A Audácia que Virou História

O rock and roll é muitas vezes um jogo de confiança. Às vezes, você não precisa saber tocar um instrumento, apenas precisa agir como se soubesse. Ninguém provou isso melhor do que Al Kooper.

Em 15 de junho de 1965, nos Columbia Studios, Bob Dylan gravava “Highway 61 Revisited”. Al Kooper, agora com 21 anos, foi convidado como guitarrista. Ao ver Mike Bloomfield, o lendário guitarrista de blues, aquecendo, Kooper percebeu que estava irremediavelmente superado. Ele escondeu sua guitarra e recuou para a sala de controle.

Mas Kooper notou algo: o órgão Hammond B3 estava vazio. O tecladista designado havia se mudado para o piano. Kooper viu sua chance. Ele disse ao produtor: “Tenho uma ótima parte para o órgão.” Era uma mentira; ele mal sabia ligar o instrumento. O produtor, distraído, saiu para atender uma ligação. Kooper sentou-se ao órgão. A fita começou a rolar para “Like a Rolling Stone”.

Por não conhecer a música, Kooper estava apavorado. Ele decidiu tocar timidamente, esperando para ouvir o acorde da banda e entrando um oitavo de nota depois. Essa hesitação, esse atraso, criou uma lentidão no ritmo, dando à faixa uma sensação relaxada e crescente. Nos refrões, Kooper ganhou confiança, batendo as mãos nos acordes e apertando o pedal de volume até o chão. O órgão cresceu como uma maré. Dylan ordenou: “Aumente o órgão!” O produtor protestou: “Aquele cara não é um organista.” Dylan respondeu: “Não me importo. Aumente o órgão.” Aquele som, o órgão amador, mas envolvente, tornou-se a assinatura da música mais importante da história do rock. Foi um **triunfo do sentir sobre a técnica**.

A carreira de Kooper foi uma série de intervenções afortunadas. Em 1968, ele estava em uma sessão com os Rolling Stones para “You Can’t Always Get What You Want”. Ele tocou piano, órgão e, em um momento de loucura inspirada, a introdução de trompa francesa. Ele imaginou um som de soul review, mas a banda o reduziu, deixando apenas sua trompa solitária e lamentosa para abrir a faixa. No início dos anos 70, Kooper produziu o álbum de estreia de Lynyrd Skynyrd, “(Pronounced ‘Lěh-ńérd Śkin-ńérd’)”, incluindo “Free Bird”, deixando sua marca sob o pseudônimo de “Roosevelt G” no mellotron e vocais de apoio. Ele era o homem que estava sempre lá quando a história estava sendo feita, geralmente porque ele próprio se convidava.

5 – Richard Wright: O Ar e a Textura de Pink Floyd

Se Roger Waters era o cérebro do Pink Floyd e David Gilmour o coração, Richard Wright era a atmosfera. Ele era o ar que a banda respirava. A música do Pink Floyd era sobre espaço, sobre o vazio, e Richard Wright sabia como preencher esse vazio, não com notas, mas com **textura**. Ele entendia que, no rock, o silêncio é tão alto quanto o ruído.

Em 1971, durante a gravação de “Meddle”, Wright sentou-se a um piano de cauda. Ele tocou uma única nota, um B agudo, alimentando o sinal através de um alto-falante Leslie e, em seguida, através de uma unidade de eco. O resultado foi um som que desafia a categorização, um “ping” que parecia o sonar de um submarino explorando as profundezas do oceano. Aquela única nota se tornou a abertura de “Echoes”, uma obra de 23 minutos que definiu o som do Pink Floyd. Era o som do isolamento, da distância, do mundo subaquático. Wright não precisava de uma enxurrada de notas para capturar o ouvinte; ele o fazia com uma.

Dois anos depois, durante a gravação de “The Dark Side of the Moon”, Wright compôs uma progressão de acordes que chamou de “sequência da mortalidade”. Solene, jazzística e complexa. A banda trouxe uma cantora de sessão, Clare Torry, que não sabia o que fazer. Wright tocou-lhe os acordes, pensando em morte e horror. Ele forneceu a rede de segurança, um pulso rítmico constante de G menor e C9º. Sobre essa fundação, Torry começou a gritar, improvisar e derramar um grito gutural de dor. A música se tornou “The Great Gig in the Sky”. O toque de Wright é o herói anônimo da faixa, mantendo a estrutura harmônica unida, permitindo que o vocal voasse para a estratosfera sem se perder.

Mas a história de Wright tem um toque amargo. Em 1979, o relacionamento entre Wright e Roger Waters tornou-se tóxico. Waters, movido pelo ego, demitiu Wright da banda. No entanto, a turnê de “The Wall” se aproximava, uma empreitada teatral massiva que precisava de um tecladista que conhecesse as músicas. Então, eles contrataram Richard Wright de volta, mas como músico assalariado. A turnê foi um desastre financeiro para a banda, mas Wright, por ser um “empregado”, foi o único membro do Pink Floyd a lucrar com a turnê original de “The Wall”. Uma vitória sombria, mas uma vitória, nonetheless. Após a morte de Wright em 2008, David Gilmour admitiu que a contribuição de Wright havia sido subestimada por décadas. Ele o chamou de “a cola da banda”.

A história é escrita pelos vencedores. No rock and roll, os vencedores são geralmente os que estão na frente do palco, segurando o microfone. Construímos estátuas para os cantores e guitarristas, canonizamos os egos e os excessos. Mas o som que amamos, o som que ainda ressoa de rádios de carro e toca-discos 50 anos depois, não foi construído apenas por egos.

Foi construído pelo toque delicado de um homem doente de Pervail, pela recusa teimosa de um purista escocês do blues, pela alegria de um prodígio do gospel, pela audácia de um malandro de Nova York e pelo gênio atmosférico de um texturalista silencioso. Nicky Hopkins, Ian Stewart, Billy Preston, Al Kooper e Richard Wright. Eles foram os **heróis ocultos do rock**. Eles não apenas tocaram as teclas, eles desbloquearam as canções. E sem eles, a música teria sido silêncio.

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